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Engraçado! É de madrugada e sinto irresistível vontade de roubar. Que se fodam a moral e os bons costumes! Ando meio despiçado. Coisa da idade, climatério, diminuição de testosterona? Sei lá! Preciso fazer exame de próstata... Ou vivo insatisfeito com a educação que se esvai neste país? A molecadinha não sabe tabuada. Nem a capital do Brasil. Os professores ganham pouco sem passar conhecimento. A música em sucesso, Calcinha Preta cuja vocalista não honra o título de País das Cantoras, é um desastre cultural... De quem é a culpa? O espírito de um ladrão apossou-se de mim ou estou num processo de viagem astral? Não sou igual a esses figurões políticos de Brasília. Porém mais sui generis. De cara estou numa feira de domingo. Gente, as uvas estão deliciosas! Confundo, às vezes, caqui e tomate. Num super mercado, entre uma degustação e outra, surrupio um envelope com sementes de... de que mesmo? Passo na frente de um banco. O dinheiro não me seduz. Não preciso dele! Como diz o verso da canção do Chico: mentira! E assaltar banco é mão de obra danada. Vai que o segurança é esperto. Bala perdida, sangue, refém... Tô fora! Numa loja de discos encontro algo raro. O objeto não tem sensor de alarme e saio despreocupado. Numa academia de musculação vejo uma toalha sobre um aparelho, exalando à alfazema. Como em outra canção está estampado: Bom Dia! Levo-a às narinas e inspiro fundo. Confesso que tenho um princípio de ereção... Deparo-me, agora, com um varal expondo cuecas e calcinhas coloridas. Meu fetiche está indeciso, em crise de identidade. O que levar? Na sala de espera de um cinema sinto forte atração por um cinzeiro decorativo. Pego-o e o escondo sob o casaco. Saio discreto a seguir. Não sou cleptomaníaco. Num banheiro público pego rolo de papel higiênico. Podia ser menos ordinário! Minha bunda merece coisa melhor. Devolvo-o. Na rua paro em frente de uma banca de jornal e leio a manchete: "rabino respeitável rouba gravatas de grife em lojas no estrangeiro e é preso". Lembro: meses atrás um estilista foi flagrado na posse de dois vasos deixando um cemitério. Chego à conclusão cabulosa: rico ou famoso quando rouba está doente, com distúrbio de personalidade por causa de remédio ingerido imprudentemente, pobre é safado mesmo... Acabo de roubar um beijo, daqueles de língua, de troca de bactérias e um coração. Feito um vampiro desesperado roubo energia da juventude. Mas já fui vítima. Num aeroporto roubaram minha paciência. Na visita do Papa minha fé. No futebol o Corinthians... deixa pra lá! Vou continuar a minha sina, pilhando feito um pirata maluco, inócuo, até que me roubem a vida.
PABLO RIBEIRO
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